A música faz parte do cotidiano das crianças muito antes da escola: está na voz de quem cuida, nas cantigas de colo, nos sons da casa e da rua. Na Educação Infantil, ela ganha um papel ainda mais importante – e não apenas como “entretenimento”. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhece a música como linguagem fundamental para o desenvolvimento integral e estabelece habilidades sonoras que devem ser trabalhadas com as crianças.
Este guia explica, em linguagem simples, como a música aparece na BNCC para a Educação Infantil e quais são as principais experiências e habilidades sonoras esperadas nessa etapa, segundo as normas atuais.
Onde a música aparece na BNCC da Educação Infantil?
Na BNCC, a música está inserida dentro do campo de experiências “Traços, sons, cores e formas”, que engloba diferentes linguagens artísticas:
– Artes visuais.
– Música.
– Dança.
– Teatro.
A ênfase está em proporcionar vivências estéticas e expressivas, nas quais a criança explora sons, imagens, movimentos e materiais, construindo significados a partir dessas experiências.
Na Educação Infantil, a BNCC organiza objetivos de aprendizagem por faixa etária e por campos de experiência, sempre com foco no desenvolvimento integral (corpo, emoções, cognição, relações sociais e cultura).
Princípios da BNCC para o trabalho com música na Educação Infantil
Ao olhar para a música na BNCC, é possível destacar alguns princípios-chave:
1. Brincadeira como eixo central
A música deve aparecer em situações lúdicas: jogos sonoros, cantigas, danças, exploração de instrumentos.
2. Experiência, não performance
O foco está em explorar, criar, experimentar, e não em apresentações perfeitas ou desempenho técnico.
3. Participação ativa da criança
As crianças são incentivadas a escolher, inventar, transformar músicas, sons e movimentos.
4. Integração com outros campos
A música se conecta com linguagem oral, movimento, identidade, convivência, matemática (ritmo, contagem) etc.
Habilidades sonoras por faixa etária (visão geral)
A BNCC organiza a Educação Infantil em três grupos de idade:
– Bebês (0 a 1 ano e 6 meses).
– Crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses).
– Crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses).
A seguir, um resumo das habilidades sonoras esperadas em cada etapa, em diálogo com o campo “Traços, sons, cores e formas”.
Bebês (0 a 1 ano e 6 meses): escuta, vínculo e exploração de sons
Na fase dos bebês, a BNCC enfatiza experiências que envolvem:
– Escuta de diferentes sons: voz humana, cantigas de ninar, ruídos do ambiente, instrumentos simples.
– Reconhecimento da voz de quem cuida e resposta por meio de sons, movimentos e expressões.
– Exploração de objetos sonoros: chocalhos, tambores macios, brinquedos que produzem som.
Habilidades sonoras centrais nessa etapa incluem:
– Reagir a músicas e sons com movimentos do corpo (balanço, sorriso, gestos).
– Estabelecer trocas sonoras com o adulto (balbuciar, imitar sons, “conversar” musicalmente).
– Começar a preferir certas músicas ou vozes, mostrando gosto e reconhecimento.
O foco é criar um ambiente sonoro rico e afetivo, no qual a música apoia o vínculo e a segurança emocional.
Crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses): imitar, repetir e experimentar
Nessa faixa, as habilidades sonoras ganham complexidade. A BNCC prevê que as crianças:
– Imitem sons do cotidiano, de animais, de instrumentos e da fala.
– Participem de cantigas, brincadeiras rítmicas e jogos de roda.
– Experimentem intensidades, alturas e durações (forte/fraco, grave/agudo, rápido/devagar) por meio da música.
Exemplos de habilidades sonoras importantes aqui:
– Cantar trechos de músicas conhecidas, com apoio do grupo e do adulto.
– Acompanhar músicas com palmas, batidas de pé ou instrumentos simples.
– Explorar diferentes materiais para produzir sons (latas, potes, papéis, água).
– Criar sons para representar situações (carro, chuva, bicho, vento).
O foco é ampliar o repertório de escuta e expressão sonora, valorizando a iniciativa da criança e suas invenções musicais.
Crianças pequenas (4 a 5 anos e 11 meses): criação, composição e apreciação
Na etapa final da Educação Infantil, a BNCC sugere experiências mais elaboradas com música, sem perder o caráter lúdico:
– Cantar em grupo, explorando diferentes formas de iniciar e terminar uma música.
– Inventar letras, ritmos e movimentos para canções conhecidas ou novas.
– Organizar sequências sonoras, criando pequenas “músicas” com instrumentos ou objetos sonoros.
– Apreciar músicas de diferentes estilos, culturas e épocas, conversando sobre o que sentem e percebem.
Entre as habilidades sonoras esperadas, destacam-se:
– Reconhecer e reproduzir padrões rítmicos simples.
– Perceber contrastes sonoros (rápido/lento, alto/baixo, forte/fraco) em músicas e brincadeiras.
– Participar ativamente de jogos de criação sonora em grupo.
– Expressar preferências musicais e justificar (“gosto porque é animada”, “porque é calma”, etc.).
O objetivo é fortalecer a escuta, a expressão, a criatividade e a colaboração – não treinar performance técnica.
O papel do professor segundo a BNCC
A BNCC aponta que o professor deve atuar como mediador das experiências musicais, o que inclui:
– Planejar propostas que envolvam escuta, criação e expressão corporal.
– Oferecer materiais sonoros variados (instrumentos, objetos do cotidiano, gravações, voz).
– Respeitar o tempo e o jeito de cada criança de se aproximar da música.
– Registrar e observar as conquistas sonoras, valorizando pequenas evoluções do dia a dia.
Não se trata de transformar a sala em uma “escola de música formal”, mas de garantir que a música esteja presente como linguagem viva e significativa.
Música, BNCC e inclusão
As habilidades sonoras previstas na BNCC também dialogam com a ideia de inclusão:
– Crianças com diferentes formas de comunicação podem se expressar por meio de sons, ritmos e movimentos.
– A música permite participação ativa mesmo quando a fala ainda é incipiente ou quando há barreiras linguísticas.
– Brincadeiras musicais em grupo fortalecem o sentimento de pertencimento.
Assim, o trabalho musical alinhado à BNCC precisa considerar acessibilidade, diversidade de repertórios e respeito às singularidades.
Como famílias e escolas podem se alinhar à BNCC na música
Para aproximar a prática musical da BNCC, famílias e escolas podem:
– Garantir que a música esteja presente de forma cotidiana, não apenas em datas comemorativas.
– Variar repertórios: cantigas tradicionais, músicas de diferentes regiões, gêneros variados.
– Oferecer oportunidades para que as crianças inventem músicas, gestos, ritmos e histórias sonoras.
– Observar e valorizar as habilidades de escuta, imitação, criação e apreciação, sem reduzir tudo à ideia de “cantar afinado”.
Quando a música é tratada como linguagem e não como “exibição”, a prática se aproxima naturalmente das orientações da BNCC.
Conclusão
A BNCC para a Educação Infantil reconhece a música como parte essencial do desenvolvimento das crianças, dentro do campo de experiências “Traços, sons, cores e formas”.
Mais do que formar pequenos músicos, as normas atuais enfatizam habilidades sonoras ligadas à escuta, à experimentação, à criação e à expressão – sempre em contexto de brincadeira, vínculo e participação ativa.
Ao planejar experiências musicais que respeitam a idade, o corpo e o jeito de cada criança de se relacionar com os sons, escolas e famílias cumprem o que a BNCC propõe: uma educação infantil que acolhe a música como caminho de linguagem, cultura, sensibilidade e humanidade.